Entrevista com Eliane Brum Ex-revista Época

Publicado: 19 de abril de 2010 em Canal de Entrevistas, Comunique-se, Entrevista, Entrevistados de 2009, jornalismo, Prêmio Comunique-se
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Entrevista realizada em abril de 2009.

Eliane Brum nasceu em Ijuí, no noroeste do Rio Grande do Sul, em 1966. Formada em Jornalismo na PUC, em Porto Alegre, em 1988. Iniciou sua trajetória no jornalismo como repórter no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, de 1988 a 1999. Desde 2000, é repórter especial da revista Época, em São Paulo.

Essa grande jornalista já escreveu três livros. Pelo primeiro, Coluna prestes – o avesso da lenda (1994, Artes e Ofícios), no qual refez a marcha do exército rebelde pelo país entrevistando uma centena de testemunhas, recebeu o Prêmio Açorianos como autora-revelação. O segundo, A vida que ninguém vê (2006, Arquipélago Editorial), uma coletânea de histórias reais sobre a extraordinária vida das pessoas comuns, foi reconhecido com o Prêmio Jabuti 2007, na categoria melhor livro de reportagem. O terceiro livro é O olho da rua  – uma repórter em busca da literatura da vida real.

Seu documentário de estréia, Uma história severina (2005), do qual é co-diretora e co-roteirista, foi contemplado com mais de 20 prêmios nacionais e internacionais. Nele, acompanha a trajetória de uma nordestina que teve o destino alterado por uma decisão do Supremo Tribunal Federal.

Brum é uma das mais premiadas jornalistas brasileiras. Ganhou mais de 40 prêmios de reportagem, como Esso, Vladimir Herzog, Ayrton Senna e Sociedade Interamericana de Imprensa. Conquistou também o Prêmio Comunique-se em duas oportunidades, em 2006 e 2008, na categoria de repórter de mídia impressa.

Entrevista

Na Mira – Como começou seu envolvimento com o jornalismo?

Eliane – Acho que foi muito antes de eu gostar de ler jornais. Eu sempre gostei muito mais de olhar e de escutar do que de falar. Então, desde muito pequena lembro de mim observando as pessoas, quieta num canto. Passava pelas casas iluminadas por dentro e queria muito saber o que acontecia lá dentro. Queria saber como aquelas pessoas viviam, com o que sonhavam, o que as fazia rir ou chorar. Como não podia entrar, ficava imaginando enredos. Lembro que, quando inaugurou o primeiro edifício chique de Ijuí, eu ficava abismada pensando como era possível tantas vidas acontecendo empilhadas. Queria muito estar ali dentro daqueles quadrados iluminados. Hoje penso que tudo começou ali. O jornalismo me deu uma desculpa para bater na porta e entrar. Acho que cada matéria que eu faço me leva para dentro de uma daquelas casas iluminadas por dentro da minha infância.

NM – Qual foi a sua maior dificuldade no início da carreira?

Eliane – Eu virei jornalista de um jeito quase por acaso. Eu estava no último semestre de faculdade e tinha certeza que seria historiadora, porque eu fazia o curso de História e de Jornalismo ao mesmo tempo, em universidades diferentes. Não me via como jornalista, não achava que servia para isso. Então conheci um professor maravilhoso, daqueles que mudam a vida dos alunos, chamado Marques Leonam. E ele falava das palavras e da reportagem com tanta paixão, que acabei me apaixonando também. Para a disciplina dele, que era de estágio, fiz uma reportagem sobre todas as filas que a gente entra, do nascimento até a morte. Uma amiga inscreveu essa matéria no I Set Universitário, um concurso entre alunos das faculdades de comunicação do sul do país. Lembro que a comissão julgadora, composta por jornalistas e publicitários, nos chamava para discutir a matéria. Quando eu entrei na sala, ouvi dos jornalistas que o que eu fazia não era jornalismo. E dos publicitários que era, sim. Como, para minha sorte, havia mais publicitários que jornalistas, eu ganhei. O prêmio era um estágio na Zero Hora e eu acabei ficando lá por 11 anos.

Nos primeiros anos foi difícil, porque eu ainda peguei o tempo em que as matérias dos repórteres passavam obrigatoriamente por uma equipe de redatores, que tratava de formatá-las. Eu sentia essa formatação como uma violência e, apesar de foca, brigava muito. Acho que os redatores também achavam que o que eu fazia não era jornalismo, porque era um texto mais solto. Mas, aos poucos, fui conseguindo conquistar meu espaço, especialmente depois que o Augusto Nunes assumiu a direção da Zero Hora, no início dos anos 90. E lá, na redação da Zero Hora, descobri que ser repórter é a melhor profissão do mundo.

NM – Você teve problema com a timidez quando entrou no jornalismo? O que fez para solucionar esse problema?

Eliane – Eu nunca tive problemas com a timidez no exercício da reportagem. Acho até que os tímidos levam vantagem no jornalismo, porque naturalmente conseguem escutar mais os entrevistados. E eu acho que ser repórter é ser um escutador da realidade, num entendimento amplo do que é escuta. Me sinto muito à vontade com os meus entrevistados, me sinto muito à vontade na rua. É o lugar e a situação onde me sinto mais eu mesma. Sou tímida com público, com gente me olhando. Mas, agora, de tanto fazer palestra, já estou mais soltinha. Em vez de um iceberg na barriga, como sempre, agora só tenho um bloco de gelo de porte médio.

NM – Já aos 11 anos você teve seu primeiro livro publicado. A que você atribui o seu gosto pela leitura e pela escrita desde tão nova?

Eliane – Os livros foram a segunda grande descoberta da minha vida. (A primeira foi feijão.) Os livros me ensinaram que eu poderia viajar por outras vidas e outros mundos sem sair do meu quarto. Até hoje não concebo nada tão perfeito quanto essa idéia. Gosto de viajar pelos livros tanto quanto de viajar de trem ou de carro. Isso foi uma enorme descoberta, uma grande transformação na minha vida. É um clichê, mas foi um portal para outras experiências. Minha subjetividade foi determinada por essa relação. Eu procurava todas as respostas nos livros, considero que minha iniciação sexual foi com algumas obras de literatura brasileira que eu li umas 20 vezes na adolescência J . Até hoje tenho uma espécie de veneração pelo objeto livro e conheço meus livros pelo cheiro. Cada um tem um cheiro e uma personalidade, mesmo antes de eu começar a lê-los.

Escrever foi outra descoberta, diferente. Eu escrevia, desde os 9 anos, como uma forma de elaborar a dor de viver que eu sempre senti. Eu não queria escrever, eu precisava escrever. Então escrevia por tudo, em pedaços de papel, em guardanapos, no meio da noite. Acho que ia deixando pistas sobre mim pela casa. Meu pai foi recolhendo esses fragmentos e publicou um livrinho. Eu me senti reconhecida, mas ao mesmo tempo exposta. Era eu que estava li, naquelas letras, e uma parte da cidade estava vendo a minha nudez. Foi uma experiência contraditória. Mas não sei como eu teria reinventado minha vida se não pudesse escrever. Não concebo uma vida sem as letras. Todas elas.

NM – Você já escreveu três livros, teve alguma história que em especial você mais se identificou?

Eliane – É difícil hierarquizar as histórias. A mais importante é sempre a que estou fazendo agora. Mas, falando dos livros, refazer a marcha da Coluna Prestes foi a reportagem fundadora. Tudo o que sou descobri ali. Nessa viagem de mais de 20 mil quilômetros conheci o Brasil e a mim mesma. Testei meus limites, aprendi o início de tudo o que é importante na reportagem. “Coluna Prestes: o avesso da lenda” foi meu primeiro livro, hoje esgotado.

Na construção de “A Vida Que Ninguém Vê”, descobri qual era a essência do que eu buscava. Sou uma repórter que se interessa pelas pessoas comuns, pelos acontecimentos que se repetem. Não tenho tanto interesse pela quebra de rotina, como a maioria dos repórteres. Eu gosto muito de um desacontecimento. O que mais me interessa é como as pessoas dão sentido à sua vida, reinventam sua vida com muito pouco. Acho isso extraordinário.

Em “O Olho da Rua”, meu último livro, mergulhei fundo numa reflexão sobre esses mais de 20 anos de reportagem. Para cada uma das dez reportagens escolhidas, todas feitas na revista Época, escrevi um texto refletindo sobre minhas escolhas, meus impasses e também os meus erros. Uma espécie de história dentro da história. Eu não queria fazer apenas uma coletânea de reportagens. Queria dar um pouco mais ao leitor. E, para que isso valesse a pena, para mim e para os leitores, eu teria de ser muito sincera, eu teria de me expor. Foi o que fiz. E valeu muito a pena.

No último capítulo do livro conto a história de Ailce de Oliveira Souza. E também conto a minha história com ela. Eu acompanhei os últimos 115 dias de sua vida. Essa mulher, ao mesmo tempo comum e extraordinária, me deu a maior prova de confiança dessas duas décadas de reportagem: confiou em mim a ponto de me deixar testemunhar o fim da vida dela, e contar uma história que ela jamais leria. Essa reportagem mudou radicalmente minha relação com a morte – e, claro, isso significa que mudou radicalmente minha relação com a vida. Só agora, dez meses depois, estou superando o luto pela sua morte. E o luto pelo que de meu deveria morrer nesse processo, para que outras partes minhas pudessem viver.

NM – Todos os personagens e histórias que você escreveu em seus livros são baseadas em fatos reais. Como você faz para indentificar as situações e os personagens?

Eliane – Eles estão perto de mim, de todos nós. O que muda é o jeito de olhar para eles. Acredito que olhar para ver é um exercício cotidiano de resistência. Tento reeditá-lo a cada dia para ser uma boa repórter, uma boa pessoa. Se você reparar nos meus personagens, vai perceber que esbarramos com eles todos os dias. Costumo dar um exemplo muito simples. Uma das histórias que conto em A Vida Que Ninguém Vê é a do Sapo, um mendigo que há mais de 30 anos fica, de segunda a sábado, espichado de barriga para baixo, na Rua da Praia, a rua mais mítica do centro de Porto Alegre. Eu mesma passei milhares de vezes por ele e só enxergava o óbvio. Um dia, me agachei. Um pequeno gesto, uma grande mudança de ângulo. No mesmo nível, finalmente nos apresentamos. Só então eu percebi que o Sapo poderia contar o que mais ninguém podia: como era a principal rua da cidade vista de baixo. Foi uma entrevista antológica. Por causa da fina ironia do Sapo e da minha singela iniciativa de dobrar as pernas.

NM – Com relação aos Direitos Humanos, muitas das suas matérias se baseiam nesse assunto. Como surgiu o interesse por esse tema?

Eliane – Acho que minhas matérias, de certo modo, falam de um direito humano fundamental: o de não ser reduzido pelo olhar do outro. O que inclui o olhar do repórter, da imprensa. Busco olhar para as pessoas sem reduzi-las a um clichê ou a um personagem folclórico, a uma parte apenas de si mesmas. Sempre lembro da Eva Rodrigues, outro personagem de A Vida Que Ninguém Vê. Eva é mulher, é negra, é pobre, é deficiente física. É a vítima preferencial, não falta nenhum ingrediente. Mas, quando a conheci, Eva dizia com muita força: “Eu não sou coitada!” E por isso incomodava, porque não deixava que a reduzissem ao lugar de vítima. A questão da Eva, que eu conto na reportagem, não era que não a enxergavam, mas o que enxergavam nela. Ao vê-la apenas como vítima, deixavam de ver tudo o que Eva é. E ao se rebelar contra esse olhar, ao se recusar a ser vítima, Eva expunha a deformidade invisível do outro. Por isso era rechaçada. Então, esse é um direito humano não escrito, mas para mim é talvez o mais importante.

Sempre achei, também, que minha principal tarefa, como repórter, era dar voz a quem não tinha. Hoje, estou muito feliz que muita gente que antes dependia do olhar do repórter para se expressar no mundo, para ser escutado, passou a contar sua própria história, especialmente a partir da internet, que criou espaços novos e acessíveis de expressão. Adoro quando o mundo da gente é revirado e precisamos dar conta de outras realidades.

NM – Na sua opinião, o que é importante para fazer uma grande reportagem?

Eliane – Além de olhar para ver, o mais importante é escutar. Infelizmente, uma parte de nós, jornalistas, foi reduzida – ou se deixou reduzir – a ser um aplicador de aspas em série. Como muitas matérias são feitas por telefone, tudo o que temos é uma voz, tudo o que temos são aspas. Assim, além de nos deixarmos reduzir, cometemos o crime de reduzir a incrível complexidade do real. Muitas vezes, o mundo que levamos ao leitor se limita ao fulano disse, sicrano retrucou. Felizmente, há muitos focos de resistência no país inteiro, mas, de qualquer modo, é triste.

Acredito que escutar é mais do que ouvir. Quando um entrevistado pára de falar, ele não parou de dizer alguma coisa. Seu silêncio nos conta dele, a palavra em que ele interrompeu seu discurso nos conta dele, o gesto que ele fez em determinada pausa nos conta dele. São informações. E informações importantes. E isso é escutar. Escutar é não interromper o entrevistado quando ele suspira, é não interromper o entrevistado porque achamos que já sabemos o que ele quer dizer, é não interromper o entrevistado porque ele não está dizendo o que queríamos que dissesse, aquelas frases que gostaríamos de encaixar na tese concebida dentro da redação.

E escutar é apurar os gestos, os cheiros, as cores, as texturas, toda a enorme complexidade do real. Com precisão, com trabalho duro. Só então conseguimos escrever um texto com tantas informações que o leitor pode ler com o prazer de uma ficção. E, assim, fazer suas próprias escolhas – e não as nossas.

NM – Que assunto você acha que renderia um livro de sua autoria, mas que até agora você não conseguiu escrever?

Eliane – Tenho vários livros que estão sendo gestados. Falta tempo. Quero escrever um livro sobre um aventureiro chamado Toco Lenzi, que viaja pelos lugares mais inóspitos do mundo pelo simples prazer de viajar. Pára onde dá vontade e fica apenas contemplando, gasta muito pouco, não quer quebrar recorde nenhum, come o que tiver, se expõe ao desconhecido, ao espanto. É uma grande história sobre um jeito de viver que contraria o marketing da viagem heróica e também a idéia de que as viagens de aventura não podem ser alcançadas por nós, mortais comuns. Em 2006, viajamos juntos pelo deserto do Saara durante 20 dias, na Mauritânia. Foi uma grande experiência de silêncio e de entrega à aventura do mundo. O Toco vem atravessando o Saara a pé, nos últimos anos.

Também quero escrever um livro sobre uma reportagem que eu fiz na Época, que talvez tenha sido a experiência mais extraordinária que já vivi como repórter. É uma longa história. E ela precisa ser contada. Há outros desejos. Sempre tenho a sensação de que vai faltar vida para fazer tudo o que sonho.

NM – Qual a matéria ou situação mais engraçada que você passou?

Eliane – Acho que foi um dia em que fazia a ronda de polícia, na Zero Hora. Tinha de ligar para umas 40 delegacias de polícia, além de plantões de hospital, IML etc. Eu gostava de fazer, até porque não fazia sempre. Falava com cada um com a maior paciência, me divertia. Numa dessas, falei com a policial de plantão numa delegacia da região metropolitana de Porto Alegre. Perguntei como é que andavam as coisas por lá, e ela disse: “Guria, aqui tá muito calmo, não tá acontecendo nada. Pra tu teres uma idéia, tem até uma galinha presa”.

Na hora, claro, apitou uma sirene na minha cabeça. Peguei um fotógrafo e me mandei pra lá. E lá estava a galinha, ruiva e abatida, no xadrez. Ela havia sido encontrada na companhia de um bêbado e de um galo morto. A polícia, naturalmente, liberou o homem e prendeu a galinha. Logo depois ficou sabendo que o bêbado era procurado por homicídio. Sei que é difícil de acreditar, mas estava lá, escrito no boletim de ocorrência: “Detida por atitude suspeita”. Foi capa do jornal. Deu a maior polêmica. E a gente, que é repórter, tem tanta sorte, que era Dia Nacional da Ave. Guardo até hoje a foto da galinha.

NM – Qual dica você dá para quem está iniciando no jornalismo?

Eliane – Escutar. Só fazer matéria por telefone ou email em último caso. E duvidar de tudo, começando pelas suas próprias certezas.

NM – Você lê o Comunique-se? O que te chama mais atenção no Portal?

Eliane – Leio sempre. Recebo o boletim e já clico para saber mais. Fico sabendo de muita coisa que acontece na imprensa pelo portal.

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